O discurso sobre inteligência artificial nas agências brasileiras passou por três fases nos últimos dois anos. Primeiro veio o pânico: a IA vai substituir o redator, o diretor de arte, talvez a agência inteira. Depois veio o deslumbre: cada plataforma lançou seu próprio “hub de IA”, cada agência colocou prompt engineer no organograma. Agora, em 2026, chega a fase que sempre faltou: a fase do método.
De um lado, agências e grupos de mídia dizem que 2025 foi de ajuste interno: governança, hubs especializados e tecnologia estiveram no foco, com a IA saindo do deslumbre para virar infraestrutura. Essa transição importa. Quando uma tecnologia vira infraestrutura, ela para de ser argumento de venda e vira pressuposto operacional. Ninguém vende mais “agência com IA” pelo mesmo motivo que ninguém vende “agência com computador”.
Os dados confirmam a maturidade. Oito em cada dez profissionais de marketing já incorporam ferramentas de IA em suas rotinas, segundo estudo do IAB Brasil com a Nielsen. No levantamento mais recente da International Public Relations Network, 82% das agências membros reportam uso regular de IA. A pergunta deixou de ser “vamos usar?” e passou a ser “como integramos com intenção estratégica?”.
A resposta, como sempre, está no processo. A diferença entre agências que capturam 80% de ganho e agências que capturam 15% raramente é a ferramenta, é o método. Esse é o ponto que separa quem está faturando mais de quem está apenas pagando mais assinaturas. Os fatores que explicam a diferença são bem mapeados: foco em workflow ao invés de em ferramenta, prompts padronizados e versionados em biblioteca interna, e validação humana estruturada. Agências que mapeiam o workflow atual e redesenham com IA capturam ganho estrutural; agências que só compram ChatGPT capturam ganho marginal.
Existe, porém, uma camada que o mercado brasileiro ainda evita discutir abertamente: o que a IA muda na precificação. Se um redator entrega em duas horas o que antes levava dois dias, a agência cobra o quê? Hora? Entrega? Resultado? A maioria das casas segue cobrando hora, o que é um suicídio comercial em câmera lenta. Quem entrega mais rápido fatura menos. Cobrar por entrega exige confiança no preço de mercado da peça, algo que poucas agências têm coragem de defender. Cobrar por resultado exige acesso aos dados do cliente, o que poucos clientes brasileiros estão dispostos a abrir.
Há também o problema da escala criativa. A Meta deve automatizar a criação de publicidades com inteligência artificial até o final de 2026. Quando a própria plataforma de veiculação gera o criativo, a função da agência fica em xeque. Não a função da criatividade, mas a função intermediária: produzir variações de banner, adaptar peças por formato, gerar copy A/B. Isso vai migrar para dentro do Ads Manager. A agência que ainda vende esse tipo de entrega como serviço principal está vendendo algo que vai virar commodity grátis.
O caminho de fuga existe e está bem identificado pelas lideranças do setor. Camila Hamoui, presidente da Wieden+Kennedy SP, resume bem: o importante é oferecer criatividade a serviço de soluções que conectem cultura, emoção, engajamento e conversas autênticas, com foco em resultado para o negócio. Em outras palavras: a IA assume o operacional, a agência assume o estratégico. Cultura, conexão e tese de negócio são coisas que LLM nenhum consegue defender em reunião de conselho.
Para a agência brasileira de porte médio, em 2026, três decisões definem o próximo ciclo. Primeiro: ter biblioteca de prompts versionada por tipo de entrega, com revisão mensal. Segundo: redesenhar o workflow com IA na camada de produção e humano na camada de decisão, ao invés de empurrar IA em cima do processo antigo. Terceiro: revisar a régua de precificação antes que o cliente faça isso pela agência.
O Brasil foi reconhecido como País Criativo do Ano na última edição do Cannes Lions. O ativo está aqui. A questão é se a estrutura de negócio das agências brasileiras vai conseguir capturar valor desse ativo na era em que a execução vira automática. A criatividade segue rara. O que mudou é tudo em volta dela.